Entrevista a José Hernani Arrym Filho, sócio diretor da Pieracciani Desenvolvimento de empresas, e pós-graduado em engenharia de produção. A empresa Pieracciani gera metodologias e incentiva a produção intelectual, resultados de estudos, pesquisa e experimentação constante. Nesta entrevista, José Hernani fala sobre os desafios de empresas inovadoras na situação atual industrial no Brasil.
1) As empresas no Brasil fazem inovação?
 
Nosso País investe apenas 1% do PIB em P,D&I, somando-se os setores público e privado. O nível médio de escolaridade de nossos trabalhadores, uma questão-chave e estratégica, é aproximadamente metade do que existe nos países da OCDE. Nossa balança comercial evidencia a nossa incompetência na produção de manufaturados e bens de alta tecnologia. Além disto, a nossa participação no comércio mundial é pequena, foi 1,25% em 2013 segundo a AEB Assoc. de Comércio Exterior do Brasil, e decrescente ao longo das últimas décadas, apesar das commodities.  Assim, nosso País precisa inovar em vários campos para competir mais e melhor, mas são poucas as empresas aqui instaladas que fazem inovação de modo sistemático. Segundo o IBGE, existem cerca de 16 milhões de empresas e, conforme o MCTI Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2012 foram apenas 787 empresas que dispunham de um conjunto de práticas de inovação que lhes permitiram fazer uso de incentivos fiscais à inovação tecnológica conforme a Lei 11.196/05. Tudo isto mostra que temos muito o que fazer pela frente. O agronegócio é um caso à parte, felizmente.
 
2) Não há dúvida de que inovação é importante para todas as empresas que querem competir. O que as empresas precisariam fazer para inovar mais e melhor?
 
Temos um povo muito criativo, participação crescente na produção de artigos científicos em revistas indexadas internacionais, mas existem abismos que temos que transpor. Um grande desafio reside na criação de um exército de “empresas inovadoras seriais”, pois não basta hoje em dia viver de uma única inovação. Inovar sempre ou morrer, este é o lema perseguido pelos  países inovadores (OCDE) e pelas empresas inovadoras. Entendo que para as empresas inovarem mais e melhor é necessário construir e manter quatro pilares, pelo menos: criar um ESTRATÉGIA de inovação, formar vários agentes internos de inovação (PESSOAS), ter muito bons PROCESSOS internos relacionados aos esforços de inovação, saber construir um AMBIENTE que aumente a velocidade e a qualidade da inovação (alianças efetivas com universidades, instituições de ciência e tecnologia e fornecedores p.ex.). 
 
3) Para um Brasil em crise, quais os passos que as empresas deveriam dar para competir e obter resultados?
 
Antes de mais nada, deveriam reclamar pouco do Governo, pois ele afeta, para o bem e para o mal, a todas as empresas indistintamente. Depois, as empresas devem focar na sua lição de casa, cujo primeiro item é criar pelo menos uma vantagem competitiva sustentável. Também, saber trabalhar em rede tornou-se fundamental nos dias de hoje. Destaco que aquelas empresas ainda preocupadas com a Qualidade precisam rapidamente superar este estágio “pré-histórico”, pois nos dias de hoje não basta mais ter apenas qualidade para competir. A régua é outra, é necessário produtividade máxima, fazer a gestão do conhecimento e inovar, rápido e sempre.
 
4) Existe legislação específica sobre inovação e incentivos governamentais para as empresas?
 
Sim. Em 1993, com a Lei 8661 que tratava do PDTI/ PDTA, o governo brasileiro iniciou a renúncia fiscal para as empresas inovadoras, mas foram poucas aquelas que desfrutaram disto. Este mecanismo foi substituído em 2005 pela Lei do Bem, a Lei 11.196 que, juntamente com o Decreto 5798/06 mais a Instrução Normativa 1187/11 mais a Portaria 715/14, compõem o atual sistema de incentivos fiscais que está sendo utilizado por apenas 787 empresas. 
 
5) Existe muita dificuldade ou burocracia para se conseguir tais incentivos?
 
Para se fazer uso de incentivos fiscais à inovação, nunca houve uma burocracia intransponível. E com a Lei do Bem o uso ficou muito mais descomplicado. No entanto, a realidade é que as empresas brasileiras investem pouco e mal em inovação, conforme já mostrei acima.
 
6) Existem hoje reais condições de financiamento à inovação nas empresas, por parte do Governo?
 
Sim. O sistema nacional de inovação é composto por vários órgãos que apoiam os esforços de inovação das empresas instaladas no Brasil, e dentre eles podemos citar MCTI, MDIC, ABDI, Banco do Brasil, BNDES, Senai, INPI, CAPES, FAPESP (e demais similares estaduais) e, especialmente, a FINEP. Entendo que hoje não há empresa média, média-grande ou de grande porte que possa alegar falta de recursos (reembolsáveis e não reembolsáveis) para apoiar os seus esforços de inovação. Exemplo: FINEP não consegue executar todo o seu orçamento. E por que não consegue? Porque as empresas brasileiras investem pouco e mal em inovação.
 
7) Estes recursos estão disponíveis para empresas de qualquer porte, inclusive PMEs?
 
Sim, desde que a empresa tenha um projeto de inovação para produto/ serviço, processo ou visando o seu modelo de gestão ou um novo modelo de negócio. Para as PMEs com faturamento anual de até R$ 90 milhões, existe por exemplo o programa Inovacred/ FINEP desde 2013. Custo da operação para a empresa financiada é a TJLP; para as empresas da região Norte e Nordeste, o custo será TJLP menos 1,5 % a.a.. A empresa deverá fornecer uma contrapartida e estar em dia para com o Fisco.
 
8) Existe alguma norma técnica brasileira que sirva de referência para os esforços de inovação das empresas?
 
Sim. Trata-se da norma ABNT NBR 16501:2011, que trata sobre diretrizes para Sistemas de Gestão da Pesquisa, do Desenvolvimento e da Inovação nas empresas. Por apenas cento e sessenta reais, este é o custo da Norma, qualquer empresa pode iniciar a sua caminhada (interminável) para a inovação. Desde 2011 nosso País é um dos poucos no mundo, além de Espanha, Portugal e Inglaterra, a ter uma norma aplicável a qualquer organização, independentemente do seu porte, tipo e atividade.
 
Fonte: Revista Pró-Industrial